A importância do desapego

Eu, Lu, tenho visto que a crise dos 25 é diferente daquelas que eu tinha com 18, 20 anos. Enquanto elas eram extremamente desconstrutivas, estas são construtivas. O que é engraçado, porque sinto que essas são mais dolorosas do que as anteriores. Mas enfim, o tema não é sobre crises e sim sobre o que tenho aprendido com uma das mais pesadas - e aquela que provavelmente irá ser a que irá me mudar mais para as próximas etapas da vida.

Esta é a lição sobre a arte do desapego (e eu sei que você leu essa frase com essa música na cabeça!)



Eu me lembro que nas primeiras orientações da Iniciação Científica, ao falar sobre um dos textos mais conhecidos de Peirce, ouvi a seguinte frase: "Nós amamos amar as nossas crenças"(depois descobri que não existe essa frase exatamente no texto, mas uma das ideias-cerne é essa). O que é verdade, pois nos é muito custoso, financeiramente e psicologicamente, abandonar e mudar crenças.

E por crenças eu não digo religião ou a crença de que "ovo é herói ou vilão". Digo de alguns dos nossos mitos comuns e que de tão difundidos nós acabamos acreditando que aquilo é uma verdade inquestionável.

Quer ver alguns exemplos?

- Não podemos largar nenhuma faculdade ou curso pela metade. Termine primeiro e depois você pense em fazer algo novo.

- Amizades são eternas.

- Amores verdadeiros são eternos

- Você não pode desistir das pessoas, mesmo que elas te façam mal.

- Você não pode ser desapegado do seu dinheiro.

- Você não pode deixar de lutar para ser bem sucedido.

- Você tem que tomar cuidado, pois pode se ferrar muito se der uma guinada totalmente contrária na sua vida.

E nisso nós nos vemos bitolados em situações que não nos fazem bem mais, mas que nos apegamos a elas muito devido a essa coisa de que não podemos largar as coisas, que a desistência é derrota.

E não nos tocamos o quanto essas coisas podem nos fazer mal a longo prazo.

Eu me lembro de uma situação extremamente dolorosa relacionada a amizade ali pelos idos de 2011, que perdurou um par de anos. E eu, no meu ato de apego, permaneci ali insistindo, o que ocasionou uma nova crise depressiva pelo mesmo tempo. Na época, eu achava que estava fazendo o correto: insistindo, não desistindo. Hoje eu sei que a única coisa que eu estava fazendo era mantendo uma situação prejudicial a mim e que no fundo, nada mudaria, pois não dependia de mim.

Este é um ponto fundamental para o bom desapego: não ficar bitolado com aquilo que não depende de você.

Se o amigo se afasta, se a outra pessoa do seu relacionamento não te ama mais, se o emprego não te satisfaz financeiramente e emocionalmente, se suas companhias te fazem mais mal do que tem, se a sua faculdade parece totalmente desconexa do que você quer para sua vida, são coisas que não dependem de você. Forçar vínculos e gostos não vai te fazer feliz, pelo contrário. E quanto mais você lutar em favor ao apego a estas coisas, a tendência é piorar.

Quando você insiste em coisas fadadas a não dar certo, por ter sido instruído a vida toda a não desistir delas a sua tendência é a frustração - afinal, elas não darão certo independente dos seus esforços, pois elas não dependem de você para darem certo. E frustração em excesso, principalmente para quem se cobra demais, pode dar sérios problemas.

E muitas vezes insistimos em coisas que mesmo que estejam dando certo, não nos fazem felizes. Por exemplo, você pode estar fazendo bem um curso da faculdade, mas não ser aquilo que você quer fazer na vida. Você pode ter uma relação "cordial" com seus amigos e isso estar funcionando para eles, mas não para você, de forma que isso esteja te prejudicando. Você pode estar em um relacionamento que aparentemente é perfeito, mas que esteja faltando há tempos aquela empolgação que te motive a sentir borboletas no estômago ou que te faça agir em prol da felicidade daquela pessoa (resumindo, quando a balança está cronicamente mais negativa do que positiva e não há nada que a faça mudar para positivo). Você pode ter o emprego que pague super bem, mas você necessite de outra coisa no momento (como um emprego que pague menos, mas que te dê mais tempo para aproveitar a sua vida). 

Essa insistência é, a longo prazo, uma autosabotagem: você está deixando de ser feliz por buscar algo que você acreditava que te faria feliz, mas não faz. E só é possível perceber e lutar contra isso quando você exerce o desapego.

Isso porque se você não pensar que as coisas são fluidas e que nem tudo que está estático e é eterno, você passa a sofrer menos com as mudanças. Aquele grande amigo e que se afastou? Foi uma incrível amizade, mas não funciona mais para os dois. Aquele emprego que paga super bem e que te deixa dividido em largá-lo ou aproveitar a vida? Ele não cabia no seu momento, relaxe. E assim nós vamos aprendendo a mudar, a sair da nossa zona de conforto e a sofrer menos.

É claro que isso não é uma defesa ao niilismo e que você deva simplesmente não se importar com nada. É apenas "let it go, honey!". Não se deixe sofrer por aquilo que você não pode interferir.

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