Não violem o nosso lar!

Esse post não estava na programação do blog. Mas senti uma necessidade enorme de escrevê-lo. Não sei quantos aqui sabem da história da menina que sofreu uma ameaça de estupro coletivo dentro do metrô de São Paulo. Se o próprio ato de cogitar violar um corpo de outrem já é inaceitável, imagine a total falta de vergonha em homens dentro de um coletivo falarem algo assim. Em voz alta. E pior. Saírem impunes.

Depois do asco, do medo, da pena, da compaixão que senti ao ler essa história, fiquei pensando em como sinceramente começar este texto. E no fundo, como todos meus desabafos, eles saem atropelados, muitas vezes sem sentido, porque como racionalizar o imperdoável? Como conseguir pensar em um roteiro quando terminei o relato tremendo tanto em choque quanto esta menina de 16 anos?


Eu já passei por uma situação delicada em que tive medo. Medo mesmo de que qualquer coisa poderia acontecer. Na verdade foi tão assustador que não havia qualquer tipo de raciocínio, apenas medo. 

Foi no final de junho do ano passado. Um moleque (porque quem tem postura assim não é homem) que malhava no mesmo horário que eu passou e disse algo olhando para mim. Eu estava com o fone e nem entendi o que foi dito. Ele foi embora logo em seguida, enquanto eu estava ainda no início da ficha. Ainda fiz uma corridinha. Indo embora para casa, passei por uma rua do meu bairro que não costuma ficar movimentada naquela hora, mas nunca tive qualquer tipo de problema. Era o bairro em que nasci nele, ou seja, sabia quais caminhos eram seguros. Olhei para trás e vi um carro preto vindo atrás de mim. E desacelerando quando se aproximou de mim. Parou do meu lado e ficou tentando me chamar. Não tinha uma pessoa para pedir ajuda. Não tinha lugar conhecido pra correr ali. Ele deu a volta e veio atrás de mim de novo com o carro e vi quem era. O mesmo garoto da academia, me seguindo de carro. Fiquei em pânico e não sabia o que sentia. O sentimento posterior foi de total impotência (E se ele sabe onde eu moro? E se ele descer do carro? E se não tiver ninguém na rua pra me ajudar?). No medo, acabei antecipando meu começo no Muay Thai. Mas ainda assim, até hoje fico entre o medo, o pânico e o ódio quando o vejo na academia no mesmo horário que eu. Da mesma forma que senti ódio quando vi um homem agarrando a bunda de uma mulher no ônibus (e todas as mulheres que viram se manifestaram prontamente). 

Eu não consigo entender a lógica que justifica na cabeça desses homens este tipo de comportamento invasivo ou violento/agressivo/intimidador - como no caso da menina de São Paulo. Se você fica meio travado se um homem está te seguindo, se você não sai invadindo a casa dos outros, se você não permite que um estranho tente invadir seu carro, sua casa, seu local de trabalho, por que diabos você quer invadir a privacidade alheia? Todo corpo é um lar, é o lar mais privado, exclusivista e sagrado. E se você cansa de viver com medo todos os dias de insegurança de assalto, sequestro, imagine viver com tudo isso e mais o medo de invadirem o lugar mais importante seu: seu corpo

É nele que você manifesta sua personalidade. Manifesta seus desejos, seus medos, suas vontades. É através dele que há sua maior expressão de existência. Uma ameaça de invasão neste lugar é destruir tudo que está ali por dentro. Imagine por um momento uma pessoa totalmente estranha entrar em sua casa e ameaçar levar sua TV, ou quebrar seus objetos pessoais, um a um na sua frente, sem qualquer motivo aparente. Não é para conseguir dinheiro (como se isso justificasse...), ou por raiva ou ódio da sua pessoa. Simplesmente ela acordou com um desejo de fazer isso e dane-se se você não lhe deu permissão para entrar, ela vai entrar na sua casa, abusar de sua impotência, realizar seu desejo destrutivo e ir embora, apenas. É assim que funciona quando um cara ameaça uma mulher de estupro (ou quando ele realmente ocorre), quando ele agarra uma mulher pelo braço para conversar na balada e não larga até conseguir o que quer, quando um homem persegue uma mulher de carro para fazer sua vontade de ter a atenção dela atendida. A diferença é que, materialmente falando, tudo que for destruído na sua casa você poderá comprar posteriormente. Aquilo que este ato injustificado de destruição da alma de uma mulher não pode ser recomposto. O medo e o trauma podem ser trabalhados posteriormente com terapias, mas no fundo eles nunca vão embora - você apenas aprende a lidar com os cacos de vidro no chão, mas o que foi quebrado não volta mais. Eu não consigo mais me sentir em paz quando vejo um carro diminuindo a velocidade perto de mim. E a garota de 16 anos nunca mais pegará um metrô cheio em paz.


Da mesma forma que não entendo o silêncio alheio. Um vagão cheio de metrô possui pelo menos uma centena de pessoas (to sendo otimista e jogando muito por baixo, ok?). Como no meio de uma centena de pessoas nenhuma delas se manifesta para impedir a violação da paz de espírito de uma menina menor de idade? Boa parte dessas pessoas que defendem que bandido seja preso e espancado simplesmente sequer falam algo para coibir uma ação dessas. O mundo ficou ilógico.

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No meio de toda essa falta de lógica, pelo menos uma coisa me fez ter um pouco mais de otimismo. Conheci o Vamos Juntas? O projeto que incentiva a sororidade é incrível e move não só mulheres, mas homens também que ajudam a proteger mulheres deste tipo de situação de uma forma bem simples: estando com elas quando estão em uma situação vulnerável. Há diversos relatos de tanto mulheres quanto homens que ajudaram pessoas nessa situação. Porque a solidariedade não tem gênero. Enquanto ainda não conseguimos reverter essa lógica estranha do abuso, vamos nos unir. E, claro, promover a educação para que isto deixe de ser rotina na vida de tantas mulheres. E aí, vamos juntas?


1 comentários:

  1. Eu aplaudi de pé seu post. O mundo está cheio de covardes - que abusam- e covardes - que poderiam fazer algo e não podem. Esse tipo de violência gera mais violência, pois não sou um pacifista, paz amor e bob marley. Espero que isso nunca mais ocorra contigo. E espero que isso não ocorra como ninguém perto de mim.

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