[Epifania] Hey, seus amigos são sexistas

Este talvez seja o post mais polêmico e menos relacionado com o tema "relacionamentos e casal" que já fiz para o Marmotas em Apuros. Foi preciso 2 horas esfriando a cabeça para pensar numa forma de tratar o tema, já que sexismo não é um tema tão tranquilo assim.

Estive refletindo sobre a postura de alguns amigos. E me toquei de uma coisa que parecia tão simples, mas que carrega um significado enorme. Já pensou no que está por trás da seguinte frase:

- Mas você é menina/mulher, (seu nome).

Ok, este é um contexto amplo. Vamos detalhar mais um pouco. E vou colocar um tom mais pessoal para que possam compreender o meu ponto.

Durante toda a minha vida me identifiquei com amizades masculinas. Não sei porque a minha relação de proximidade era maior. Não tem um motivo exato racional para isto. Acontece. Nos encontros dos amigos do Paulo, gosto de estar entre os homens. Não sou lá muito fã daquela divisão arcaica dos encontros de clube do bolinha na churrasqueira e clube da luluzinha em um canto.

Porém hoje me toquei que diversas vezes passei por situações que me constrangeram, me irritaram ou me decepcionaram profundamente. E pensando nisto tudo, cheguei a conclusão de que convivo com amigos/colegas sexistas.

Não são pessoas que bradam que lugar de mulher é na cozinha e de homem no volante. Não defendem que bebê masculino veste azul e feminino veste rosa e que inverter esta lógica é errado. Não bradam que é obrigação do homem pagar a conta. Muitos deles defendem a igualdade de gênero. Possuem mente aberta - até certo ponto. Mas é nos pequenos detalhes que vemos que ainda há embates que parecem pequenos, mas que seus efeitos são grandes e que devem ser sim discutidos para que possam ser modificados.

Determinadas zoeiras possuem o rótulo de "brincadeiras de homens". Zoar com coisas totalmente "estúpidas", fazer apostas nonsense, comentar sobre carros, mulheres, futebol, etc. E, portanto, muitos deles simplesmente evitam fazer elas na minha frente "porque você é menina, Lu". 

- Oi? 

Esta é apenas a ponta do iceberg. Eu acredito que algumas zoeiras não agradam a todos. Mas isto é independente de gênero. Eu, Lu, se tiver que beber mais do que a maioria dos homens da mesa, falar besteiras a rodo, se quiser entoar o comentário sobre alguma mulher que o grupo acha gostosa, fazer apostas ridículas, eu vou. Não tenho pudor com assunto algum, se estiver puta com algo, não hesitarei nenhum segundo em bradar um "vai a m..." (claro, não na frente de pessoas desconhecidas. Eu sei diferenciar contextos), nunca critiquei qualquer amigo meu que seque uma garota no ônibus na minha frente (não por estar na minha frente, e por mais que tenha alguns agravantes na ocasião em que isto ocorreu, optei por simplesmente deixar para lá). Eu nunca pedi para ser protegida do "mundo masculino". Pelo contrário. Me divirto (não por ser masculino, mas por ser engraçado). Aquele papo massante, sem brincadeiras que rola quando o clube do bolinha e da luluzinha se funde para não desagradar as outras participantes me entedia. Eu ser calada não significa que eu não seja zoeira. Há uma grande diferença nisso.

Eu já fui excluídas de saídas com pessoas que não vejo há mais de um ano porque "era o programa dos manolos" - sentar numa mesa de bar e zoar com algo. Eu não condeno que queiram sair entre eles porque com alguns eu não tenho intimidade. Mas a exclusão sempre é algo que me incomoda, apenas pelo meu gênero. Eu já fui convidada em cima da hora para programas porque um amigo não concordou que "não te chamaram para ser só os homens" - o que não impediu este mesmo amigo de já falar várias vezes a frase anterior que me enche de raiva. Já fui excluída de piadas internas porque "foi feita no grupo que tem só os homens". E não, ela não será explicada para você porque, adivinha? "Você é mulher, Lu. Não pode ouvir essas coisas". 

Não me incomoda o ato. Me incomoda o critério.

Já presenciei cenas de reuniões nas quais mulheres que pensam como eu, ao se aproximar do grupo dos homens (quando rola a divisão dos clubes do bolinha e da luluzinha), se viram totalmente excluídas do assunto. Todos se calam e o riso frouxo de outrora se transforma em seriedade. Muitas vezes o assunto não é nem "fulana gostosa". É uma piada com um amigo que fez merda, o carro tunado do outro amigo. Mas a presença da mulher ali incomoda, e portanto, o assunto se volta para amenidades. O próprio companheiro faz questão de mudar o assunto. Pense no sentimento que é cada vez que você passa perto o assunto parar, sendo que não era absolutamente nada de mais? Constrangedor, não?

Já passei pela situação de estar com o Paulo e chamarem ele (e somente ele) num canto para zoar de alguma coisa totalmente banal (um exemplo: "olha só o fulano com essa barriguinha de chopp sexy"). E fiquei sozinha esperando ele voltar da tal zoeira. Pensem: 5 homens em um canto e eu sentada sozinha olhando para o teto aguardando o retorno. Algo que sinceramente não era nada pessoal de alguém ou particular o suficiente deles para que eu tivesse que ficar fora do assunto.

Talvez eles não se toquem. Talvez você que esteja lendo nunca tenha se tocado este mesmo tipo de postura por parte dos seus amigos, ou até mesmo do seu companheiro (que não hesita em manter ou até mesmo alimentar esta situação). Mas reflita um pouco. Pense se realmente o critério de "ser mulher" é motivo para que ocorra uma exclusão de brincadeiras e zoeiras que você curte, adora ou não se importa com o teor. E se você faz isso com suas amigas, pense: "esse critério é justo? Ou eu estou sendo apenas mais um babaca nojento?". 

Não, homens não são zoeiros de bobagens e mulheres mais mimizentas e recatadas. E espero que este texto possa dar um clique nas mulheres que passam por isso e não se tocam a reagirem contra esta postura; e que homens que leiam façam uma autocrítica.

Não existe "brincadeira de homem" e "papo de mulher". E espero que o outro lado (mulheres que acreditam que existe esta dicotomia) também abandonem este estigma. Brincadeira é brincadeira. Ponto. 

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