Lembranças

Antes de segurar o primeiro suspiro pesado, lembrei. Lembrei de todas as nossas palavras, promessas. De sua forma tão única de segurar as minhas mãos e de fazer um grande nariz verde se esfregar por toda a minha cara quando o mundo parece mais pesado do que meus ombros podem suportar. De como teu braço se encaixa tão perfeitamente debaixo da minha nuca e sua mão entra entre meu cabelo e faz aquele afago que o bagunça de uma forma tão única - uma bagunça bonita, da qual eu naturalmente não reclamo.

Lembrei das cócegas que sinto quando assopra a minha barriga - como se faz com crianças, como você fará com suas crianças, nossas crianças -, me fazendo crer que apesar dos meus 23 anos calejados (com ares de quase 40) eu ainda sou uma pequena menina aos seus olhos e isso não me deixa irritada ou qualquer outra coisa. Pelo contrário, vejo que admira um certo ar de ingenuidade, aquele lado meu que não endureceu com os anos e que só você é capaz de enxergar.

Lembrei da forma tão peculiar como os dedos do seu pé procuram os meus no meio da noite e os aperta, como se precisasse entrelaçar algo comigo, e as mãos não pudessem fazer, pelos motivos óbvios de nossa incompatibilidade na hora de dormir. Você vai me espremer num canto da cama, vai acordar quando meu ombro doer e o braço ficar dormente e eu precisar me virar, mas nunca, jamais deixa de buscar meu pé para entrelaçar seus dedos com os meus - e assim, percebi que meu hábito de sempre dormir de meia não é lá tão necessário assim.

Lembrei do teu jeito tão preocupado de me surpreender. Sumir e aparecer, o medo de me incomodar. E de repente, não mais que de repente, vir com uma flor, um texto, um desenho e um beijo com aquela carinha safada de quem aprontou alguma coisa.

Lembrei que naquela manhã de 05 de maio de 2007, próximo às 10 da manhã, um garoto meio marrento surgiu no meu caminho e eu disse "eu não acredito". Porque você não acredita que todo seu futuro está traçado em um encontro que poderia render tantas coisas e nada ao mesmo tempo - e que trouxe um mundo todo de esperança, de amor, de fé, de existência para mim, e que percebi isso naquele primeiro olhar, que tanto me assustou e me confortou ao mesmo tempo.

Lembrei que um dia seremos um casal de velhinhos caminhando por Paris, e você pode até por alguns momentos confundir meu nome, esquecer algum detalhe do nosso passado. Eu posso ser a velhinha gagá (muito provável diante da minha loucura habitual e a genética estragada), que vai andar com uma meia de cada cor ou então falar: "eu gosto muito daquele homem, sabe? O Paulo?", mas você jamais esquecerá de dizer numa manhã fria no meio do inverno europeu: "até a última página".

... E sorri. Simplesmente sorri. Mesmo com o coração querendo gritar, eu sorri.

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