[Readequando o tema da paciência para a consideração] - Uma pequena historinha.

Essa é uma história real, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência

Era uma vez um senhor de meia idade, metido a orgulhoso na vida. Turrão em casa, sorridente na rua. Para os "amigos" com quem não se impedia nenhum dia a estar, vivia dando presentinhos, mimos. Era um chocolate aqui, um DVD ali... Se dispunha a tudo, a levar correndo para o médico caso alguém se acidentasse, a nunca dizer 'não' as visitas, não importava se fosse esquema de "intera" com valores um tanto quanto salgados. Para eles nunca havia um "não" a ser dito. 

- Fulano, vamos lá em casa amanhã? Vai ter churrasquinho e piscina.

Não importava o calor que estivesse fazendo, não importava se ele odiava piscina e bebida. Ele estava lá. Não importava se era domingo (vocês vão entender a alusão a este dia), podiam contar com ele.

Porém, como tudo na vida...

Enquanto isso, em casa, o senhor sorrisos se transformava. Era com a família que vinha os berros, as brigas, a cara fechada, a total falta de paciência para brincadeiras. Podiam estar gritando, se contorcendo de dor: era necessário fazer quase um requerimento formal, três vias, com cópia autenticada em cartório para conseguir uma carona até o hospital.

Era difícil lembrar quando chegava um mimo. Acontecia somente quando alguém dava algum presente que ele não poderia aceitar. Gastar dinheiro com este povo? Jamais!

E ai de você se pedisse qualquer coisa no sagrado domingo. As reações variavam de bufos até as maiores reclamações possíveis, com direitos a pitis fenomenais. Tudo é com horário marcado e ai de você se atrasar 30 segundos, o celular vai tocar imediatamente ou as reclamações irão te perseguir até em casa.

Porém, nos apertos, quando o coração apertava, era para um destes membros que vinha a solene frase:

- Desculpa, eu preciso falar com você, eu não tenho mais com quem desabafar.

- Resposta mental: com todas aquelas pessoas que você vive puxando saco na rua e que não são elas que suportam a sua má fase.

E então, chegamos na parte solene da história.

Curioso como sempre sacrificamos as pessoas que estão lá por nós. Aquelas que aguentam as nossas barras, as nossas rabugices, nosso mal humor matinal. E sempre nos sacrificamos por aquelas pessoas que, nem quando lembramos, se dispõe a ligar no dia do nosso aniversário.

São para estas pessoas que nos confortam na dor que soltamos o "vamos voltar logo, você entende o porquê, né?"; "você sabe que não posso" ou não falamos nada, simplesmente soltamos um solene "não" ou a desmotivamos de alguma forma, até que elas retornem para casa, descontando a raiva no banheiro ou em longos desabafos com outras pessoas. Ou então guardam, até os restos se sedimentarem e se transformarem em uma grande bola de neve em uma discussão.

Para as outras, nos sacrificamos a sair, diante de mil compromissos, em um sol escaldante, com coletivo apertado, sem pestanejar, com um sorriso enorme. Tudo por quê? "Ah, como vou chegar e ficar falando 'não' para essa pessoa?". E pergunte se estas pessoas são aceleradas duas, três, cinco vezes para saírem da companhia deste protagonista, tal como as outras que fazem tudo por ele?

Se a meritocracia não chega na vida social, ela muito menos chega nos relacionamentos interpessoais. Sempre aquele que corre atrás, que dedica, que faz o 'melhor trabalho' é o maior sacrificado. São os outros que não acompanham as sagas que colhem os louros.

Repensem no quanto estão sendo justos com quem está efetivamente segurando as pontas por você. Não que eu não ache justo se sacrificar por outras pessoas, jamais. Mas não quando há um desequilíbrio nessa balança. Porque no fundo, nada mais é do que ingratidão agir assim. É o desprezo total e completo pela consideração que o outro tem por você.

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