Pelo fim da visão deturpada de sacrifício

Essa parece uma palavra maligna. Quase uma maldição. Experimente chegar para muitos casais e perguntar sobre isso. Parece obrigação, coisa do capeta.

- Eu? Abrir mão de quem eu sou? Se eu fizer isso uma vez, vai acontecer sempre.

Meus queridos, essa é uma das piores falácias do mundo do relacionamento. Mesmo.

Pensei nisso quando ouvi da Gabi (uma grande amiga minha) que eu e o Paulo tínhamos uma característica diferente. Eu não me lembro as palavras exatas, mas o tom foi no sentido de que era bacana como um se sacrificava pelo outro porque queria.

Sem a cobrança. Sem o pedido.

Surgiu no contexto em que era falado que o Paulo ouviu todos os programas de mergulhão de rádio meus. Lembre-se: era acordar e estar ouvindo um programa as 8 da manhã, enquanto ele terminava a monografia, fazia estágio e não tinha a obrigação de acordar tão cedo.

A explicação dele sempre foi muito simples: "Eu quero ouvir o que você faz".

Prestou atenção nessas duas primeiras palavrinhas, não é?

Da mesma forma que, quando eu pedi para ele fazer uma conta para mim em um jogo de gráfico 8 bits (vulgo Tibia), ele me perguntou o motivo.

- Porque eu quero fazer isso com você.

Eu nunca fui gaaaaaamer de MMORPG. Nem ele fã de noticiário, ainda mais no rádio.

Mas o fato de fazer algo com ele me fazia feliz. O fato de ele ouvir minha voz, eu trabalhando, fazia ele feliz.

Virei um ano novo jogando Super Mario World (ok, ignora, essa eu gostei). Aprendi a jogar Magic. Fui na academia muitas vezes com ele com o corpo pedindo arrego, com dor de cabeça, já assisti dois filmes seguidos com ele no cinema (o que acharia totalmente desgastante). Ele, o cúmulo da branquelice, me leva para a praia no meio do dia, morre de vontade de ir numa balada comigo (mesmo odiando), me leva para passear quando quer ficar em casa e, inclusive, já assistiu filme do Almodóvar comigo (A pele que habito, para os curiosos)!

E no fundo, eu sempre me senti bem com isso. E ele também.

As vezes engulo minha vontade de sair: ele tá cansado, não curte, deixa o menino. As vezes ele é que cede, e me tira do tédio me levando para algum lugar.

Não é um contrato. Não precisa firmar a certeza de ser 50/50. Se percebemos um desequilíbrio, falamos (mesmo que seja numa discussão, mas pelo menos vamos para algum lugar). É um consenso agradável. Eu não abri mão de nada. Nem ele. E no fundo, nós amamos isso. Ele fica feliz vendo eu fazendo as coisas que ele gosta, e vice-versa. Isso é bonito, isso é saudável.

Fico triste quando alguém fala "mas eu vou (deixar de) fazer iiiiiisso por ele?". Parece que há uma necessidade incessante de proteger o ego sempre. Um medo sempre de ultrapassar a linha. ISSO é o desastre de qualquer relação. Na guerra dos egos, não sobra espaço para o amor. Eu gosto de filme alternativo, ele gosta de filme de ação. Ele ama hip-hop, eu não suporto. Eu amo estar ao ar livre sempre, ele prefere ficar em casa. Só que não temos muito tempo para ficar discutindo qual o ego que vamos satisfazer sempre. Não deixamos o outro sozinho fazendo o que quer.

O nome disso é companheirismo.

Senhores, eu não digo: cedam sempre. Só peço: não deixem de ceder as vezes. Faz bem ao coração. ;)

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